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PrEP, o medicamento que evita o contágio com HIV, é novo aliado no combate à AIDS

Priscylla Almeida

jornalista

Saúde e Esporte 28.07.2017 / 07:00

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Ele começará a ser distribuído pelo SUS ainda neste ano

É possível que pessoas não infectadas, mas que possuem maior vulnerabilidade ao contágio, possam se prevenir contra o vírus do HIV utilizando diariamente uma pílula antirretroviral (ARV). Parece utópico, mas essa realidade já existe. A pílula, denominada PrEP, sigla de profilaxia pré-exposição ao HIV,é também conhecida por Truvada, seu nome comercial. Trata-se de um medicamento que combina dois tipos de retrovirais, o tenofovir e emtricitabitina, que bloqueia o ciclo da multiplicação do vírus, caso ocorra a infecção. Não é uma vacina, mas evidências científicas mostram que o medicamento possui eficácia superior a 90% com o uso contínuo.

No mundo, há cerca de 36,7 milhões de pessoas vivendo com o HIV, segundo dado da Organização Mundial da Saúde (OMS). A PrEP é um grande passo no combate à doença, já que seu diferencial é atingir um público que possui maior vulnerabilidade de se infectar e que, por algum motivo, não consegue se proteger em todas as relações sexuais. Fazem parte desse grupo a população transexual, casais soro discordantes (quando um tem vírus e o outro não), homens que fazem sexo com outros homens (HSHs) e profissionais do sexo.

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Fonte: Estadão

De acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, o Brasil apresenta uma média de 40 mil novos casos de HIV/Aids por ano. Nas pessoas consideradas deste grupo de risco, a prevalência de HIV é de 5 a 10%, sendo que na população em geral o risco de infecção é de 0,4%.  Em alguns países no mundo, a taxa de prevalência do HIV em mulheres transgêneras chega a ser 80 vezes maior que a população adulta em geral (OMS). Profissionais do sexo possuem 13,5% mais chances de serem infectadas. Diversas questões como violência, barreiras legais, estigma e discriminação dificultam o acesso para essa população. 

O começo

A ideia de prevenir o vírus do HIV ganhou maior visibilidade com Greg Owen, um irlandês homossexual que vivia em Londres, trabalhava como barmen e que ao ouvir falar do Truvada decidiu pesquisar a respeito e em como obtê-lo. Naquele momento, em 2015, a PrEP ainda não estava disponível e uma prescrição privada custava em torno de 500 euros por mês. Owen descobriu um estudo em andamento que testava a eficácia do remédio, se inscreveu e começou a publicar em seu blog atualizações sobre o programa do qual fazia parte.

Mas, em um dos testes de rotina, Owen descobriu que já havia contraído o vírus. Mesmo devastado com a notícia, ele decidiu fazer desta situação um meio para que outras pessoas não contraíssem a doença: Owen criou o siteIWantPrEPNowe lá publicava informações, extensas pesquisas, atualizações e até formas viáveis de onde comprar o medicamento. Em pouco tempo, Owen se tornara um ativista em meio a uma agitada rotina de entrevistas e participações em programas da mídia para ajudar mais e mais pessoas a saberem sobre a PrEP. Em 2012 o Truvada foi aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) como medida preventiva – antes o remédio era usado apenas como tratamento - e desde então, seu uso vem aumentando.

PrEP no Brasil

No Brasil, a PrEP vai começar a ser distribuída ainda este ano pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Seremos o primeiro país da América Latina a realizar essa medida, que terá investimento inicial de US$ 1,9 milhão para a compra do medicamento, que será destinado em um no primeiro momento a 7 mil pessoas que fazem parte das populações-chaves em 12 estados brasileiros. O Ministério da Saúde afirma que essa medida deverá aumentar conforme a demanda. “O Brasil, mais uma vez, sai como um dos pioneiros na prevenção e tratamento do HIV”, afirmou o ministro Ricardo Barros, durante entrevista coletiva. 

O estudo iPrEX já vinha sendo conduzido em quatro centros de pesquisas no país financiados pelo Ministério da Saúde: a Faculdade de Medicina da USP, pelo Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Hospital Partenon (Porto Alegre).

Uso do preservativo

Apesar de grande aliado ao combate à AIDS, a utilização da PrEP não é substituta do preservativo, já que o medicamento não possui 100% de eficácia e ajuda na prevenção somente contra o HIV. O uso da camisinha continua sendo o mais indicado para a prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis, como a gonorreia e hepatites, além de evitar a gravidez indesejada.

A PrEP surge como mais uma alternativa para lidar com o vírus da AIDS, mas é importante que as pessoas continuem usando a camisinha como forma de evitar o contágio com o vírus HIV. Nos últimos anos, percebeu-se uma queda na compra de camisinhas e no uso do preservativo nas relações sexuais, o que não é nada recomendado pelos médicos.

Dados do Target Group Index da Kantar IBOPE Media mostram que nos últimos 5 anos, houve queda na compra (-21%) e no uso do preservativo (-9%) entre brasileiros maiores de 18 anos. Os números são ainda mais alarmantes entre o público jovem: na faixa etária entre 18 e 24 anos, a compra da camisinha diminuiu 25% e o uso do preservativo em novos relacionamentos caiu 11%.



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Talvez por não terem sido testemunhas de mortes em decorrência da AIDS, já que hoje um soropositivo tem uma expectativa e qualidade de vida muito melhor, os jovens podem estar negligenciando os cuidados com a própria saúde.

Até mesmo a PrEP, por exemplo, é uma nova alternativa direcionada às populações de risco – como casais soro discordantes – e não funciona como uma “vacina” contra o vírus HIV. “A AIDS continua sendo uma doença sem cura e que pode atingir a todas as pessoas”, alerta Eloisa Moreira, diretora de pesquisa clínica da Kantar Health.

Informação ainda é aliada

A desinformação é outro grande desafio quando se fala da doença: do total de brasileiros vivendo com AIDS, o Ministério da Saúde projeta que cerca de 20% não sabe que têm a doença. Esse dado mostra o quanto informação e prevenção são importantes para que mais pessoas não contraiam e transmitam a doença. “Em grande parte dos casos de HIV, não apenas a vida do indivíduo está em jogo, mas também as vidas de seus parceiros”, ressalta Moreira.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) liberou a comercialização de autotestes de HIV em farmácias no ano passado. “O autoteste pode auxiliar em boa parte dos casos em que a razão para a pessoa não realizar o exame é o medo do diagnóstico”, enfatiza Moreira. Além disso, o SUS também oferece o exame gratuitamente e sem a necessidade de identificação.

Mesmo com o número de casos diminuindo - a proporção de novos casos em relação ao total da população caiu 5,5% em 2015 no Brasil, segundo o Boletim Epidemiológico - os números da doença continuam alarmantes. Só no Brasil, o número de mortes relacionadas à AIDS foi estimado em 15.000 pela UNAIDS em 2015.

Vivendo com a doença

Além da nova medida de prevenção com a PrEP, o Brasil hoje tem uma das maiores coberturas de tratamento antirretroviral (TARV) entre os países de baixa e média renda, com mais da metade (64%) das pessoas vivendo com HIV recebendo TARV, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O TARV evita que o HIV se multiplique no organismo. Se a reprodução do HIV para, então as células imunes do corpo são capazes de viver mais tempo e proteger o corpo contra infecções.

A AIDS não tem cura, mas com o avanço da medicina e tecnologias, pode ser tratada com medicamentos, aumentando assim consideravelmente o tempo e a qualidade de vida do paciente. “O tratamento tem como objetivo manter a carga viral (de modo simples, a quantidade de vírus no organismo do paciente) baixa. Os exames periódicos permitem verificar se a carga viral permanece baixa ou se aumentou; nesse último caso, os exames também podem identificar mutações no vírus e, como consequência, qual alteração no tratamento deve ser feita”, explica Moreira.  

Fonte: Kantar Health, Kantar IBOPE Media, Kantar

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